Estudo do Ciúme
Esses dias estava assistindo conteúdo do canal: Casa do Saber, cujo tenho uma até desconfiada admiração - parte disso vem do pressuposto de que é um canal excepcional em todos os sentidos.Logo, decidi estudar sobre a temática envolvida do ponto de vista filosófico/antropológico/psicológico/analítico. Eis ai:
O ciúme como sintoma e como causa é uma das mazelas mais interessantes na sociedade contemporânea. É possível afirmar que o ciumento inconscientemente seria o humano que necessitaria do outro pra amar a si mesmo. Para Sócrates, o ciúme se comporta como causa de sofrimento abastado, se comporta como uma das piores dores que um amante poderia produzir, a dor na alma.
“O ciúme foi definido por Sócrates como a dor
da alma em sua forma mais agressiva e
mutiladora, que pode até levar a morte do
parceiro ou da própria pessoa que o sente
(GRYZINSKI, 1996).”
Freud vê o ciúme como constitutivo, parte de uma alegoria fundamental na constituição do humano como humano, parte da construção traumática da personalidade individual.
“Se alguém parece não possuí-lo,
justifica-se a interferência de que ele
experimentou severa repressão e,
consequentemente, desempenha um papel
ainda maior em sua vida mental inconsciente”
[Freud, 1922/1996]
Ora, nessa análise podemos considerar a questão da definição Frudiana caracterizada pelo estado emocional que pode ser comparado ao
luto, caracterizando-se pelo sofrimento
causado pelo pensamento de perder o objeto
amado, pela ferida narcísica e também de
sentimentos de inimizade contra o rival bem
sucedido.
Não seria o ciúme uma relação paradoxal de ódio e amor? Um sentimento constante de inferiorização do eu? Não seria uma constante auto afirmação de fraqueza? - "Pois se não tenho o bem amado, e penso em perdê-lo a culpa seria somente a minha"Não seria o ciúme a maior afirmação de incapacidade de manutenção das relações?
Para Lacan “...uma identificação com o irmão pendurado
no seio da mãe.” Lacan concorda com as proposições feitas a respeito do ciúme por Santo Agostinho onde observava o ciúme de um irmão para com o outro enquanto a mãe o amamentava, o sentimento de inferiorização, a "Inveja do espetáculo amargo de seu irmão de leite".
"Além do mais, é digno de nota que, em certas pessoas,
ele é experimentado bissexualmente, isto é, um homem não apenas sofrerá pela mulher que ama
e odiará o homem seu rival, mas também sentirá pesar pelo homem, a quem ama
inconscientemente, e ódio pela mulher, como sua rival; esse último conjunto de sentimentos
adicionar-se-á à intensidade de seu ciúme."
[Alguns Mecanismos Neuróticos nos Ciúmes na Paranóia e no Homosexualismo,1922]
É perceptível analisando os textos bases e o vídeo de Welson Barbato que o fato se refere a ferida narcísica, afinal quando o homem ou a mulher comentam sobre seu ciúme com a deixa de reclamação para psicanálise se decora como um evento, o homem colocando o outro homem como objeto de desejo, como objeto comparativo, a mulher vice e versa, ora, "O ato de olhar pra o outro e julgar sua beleza e sua capacidade de atração é um ato de criação de objeto de desejo", nas relações heterossexuais isso se qualificaria como surtos de momentos homo afetivos.
Não seria o ciúme o ato de projetar sua necessidade/ansiedade de infidelidade no outro?
O ciúme no campo da psicanálise pode ainda ser visto como Paranoia, como um delírio individual de projeção, como auto afirmação de inferioridade. Suponhamos que você tenha seu parceiro, você encalorado pelo devir dos ciúmes acusa seu parceiro de infidelidade, nesse momento, as possibilidades apontam que no campo investigado onde se não tem uma informação factual o seu parceiro pode ou não pode ter acometido a infidelidade, nesse quesito se observa uma fuga à racionalidade, um método de justificativa de erro, ora, "meu parceiro só pode ter sido infiel a mim pois não sou capaz de ser suficiente", ou "meu parceiro foi infiel a mim pois não tenho o que é necessário pra satisfação do mesmo".
Ainda no campo Freudiano existe uma estratificação do ciúme, ou seja, pode ser dividido em 3: Competitivo (normal), Projetado e Delirante. No competitivo se compõe de pesar e daquela ferida narcísica abordada acima, do pavor de perder o objeto amado. Na segunda camada, o ciúme Projetado, "de sua própria infidelidade concreta na vida real ou de impulsos no sentido dela que
sucumbiram à repressão" admite-se proposição de que se caracteriza basicamente da projeção da infidelidade como forma de repressão, do desejo proibido, da super valorização da monogamia na sociedade ocidental, "Qualquer
pessoa que negue essas tentações em si própria sentirá, não obstante, sua pressão tão fortemente
que ficará contente em utilizar um mecanismo inconsciente para mitigar sua situação."O ciúme delirante é o
sobrante de um homossexualismo que cumpriu seu curso e corretamente toma sua posição entre
as formas clássicas da paranóia. Como tentativa de defesa contra um forte impulso homossexual
indevido, ele pode, no homem, ser descrito pela fórmula: ‘Eu não o amo; é ela que o ama!’ Num
caso delirante deve-se estar preparado para encontrar ciúmes pertinentes a todas as três
camadas, nunca apenas à terceira.
"À luz da psicanálise, estamos acostumados a considerar o sentimento social como uma
sublimação de atitudes homossexuais para com objetos. Nos homossexuais com acentuados
interesses sociais pareceria que o desligamento do sentimento social da escolha de objeto não foi
inteiramente efetuado."
Portanto analisado o ciúme como causa e como consequência cabe ao leitor julgar valia dos fatos e desenvolver um pensamento crítico afim de auto conhecimento, "Nosce te ipsum" (Conhece a ti mesmo) - Filosofia socrática.
[Texto base: Alguns Mecanismos Neuróticos nos Ciúmes na Paranóia e no Homosexualismo, GRYZINSKI, Postulados Socráticos]
~Dave Bastos
Muito bem feito, muito bem construído parabéns!!
ResponderExcluirObrigado Ana.
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